Dia 24… – Explicações

 

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Enrolei – me na toalha e fiquei olhando o celular tocar, sem saber se atendia ou não, acho que aquele não era um bom momento. Desviei a ligação e esperar um tempo pra responder. Carlos não tinha culpa, mas não achava justo passar aquilo adiante.

Comecei a desfazer a mala e aos poucos eu começava a aceitar que as lembranças viessem, frias, amargas, parecendo fel correndo em minha veia e completas finalmente.

Coisas que antes eu se quer admitia e tinha ignorado para poder viver bem, eu tinha medo daqueles fantasmas, tinha medo de você e do que você representava.

Você não era o cara que se prendia e com ela, Vivian, era esse o nome, o nome que eu não dizia, não foi diferente.

Ela estava lá, ironias do destino, acompanhada de mais duas outras moças que eu se quer conhecia ou tivera ouvido falar, de braços dados como se fossem as três as suas viúvas, mas a culpa da sua morte era minha. Única e exclusivamente minha. Era isso que sua mãe dizia e era isso que me martirizava.

Eu preferia vislumbrar seu sorriso todas as manhãs nos lugares que eram nossos, com qualquer uma delas, desde que você estivesse lá, feliz, vivo.

Tânia me chamou por que eu era única que ela havia conhecido pessoalmente, uma vez ou outra, por erro seu eu acho, mas como você mesmo disse, para ela,você não tinha segredos.

Meu número? Estava em um caderno preto dentro do carro, a policia entregou a ela.

Era tanta coisa bagunçada, eu queria gritar, eu queria chorar, um pedaço meu tinha sido arrancado sem dó e nem piedade.

Uma parte que eu achava tão minha, havia partido sem ao menos dizer um adeus decente, nós brigamos. Brigamos na noite que você morreu, brigamos por que você me chamou pelo nome dela, por que era nela que você pensava quando estava comigo, e eram apenas as migalhas que agora me sobravam.

Eu era a fuga da rotina e eu estava cansada daquilo, eu me sentia suja. Eu me sentia um nada. Ainda me doía lembrar que eram dela os finais de semana, aqueles que você se quer respondia. Era ela o novo troféu para os amigos, e eu era que aquela que as pessoas tinham dó.

Não, eu não sabia ser como você, dormir e acordar com um desconhecido ao lado e torna – lo um pedaço  a ser apenas usado.

Era essa a palavra: USADA!

Mandei uma mensagem para Carlos já tarde da noite, dizendo que o celular estava no modo silencioso e no carregador, que no dia seguinte os veria e que estava com saudades de Valentina.

Mandei outra a J.P dizendo que havia chegado e que precisava descansar, a mesma conversa com meus pais, eu precisava daquele tempo sozinha.

Sabe, eu não chorei quando sai do hospital, eu apenas andei algumas horas sem rumo, estava um dia estranho, cinzento e vazio. Eu esbarrava nas pessoas e sentava em algum banco as vezes olhando pro nada, minha mente parecia não querer assimilar o que estava acontecendo.

Eu queria, juro que queria que algo  ou alguém estalasse os dedos na minha frente e me tirasse do torpor, daquela letargia morna de fim de tarde que te mantém preso a cama quando se está com preguiça, mas não tinha.

Voltei para casa para ver dez mensagens de amigos e meus pais preocupados, respondi uma a uma dizendo que estava bem, para em seguida arremessar o celular na parede e vê – lo partir – se em vários pedaços.

No dia seguinte eu me vesti para trabalhar e adentrei as portas da empresa como se nada tivesse acontecido, comprei outro celular em sabe – se Deus quantas prestações e continuei como se você apenas estivesse com raiva e fosse voltar a qualquer momento.

O que veio depois disso, as bebedeiras infindáveis, todos tinham medo, mas ninguém ousava falar nada depois dos acessos de fúria que eu tinha.

Dr. Monteiro me disse quando comecei a participar das sessões que eu ainda não tinha vivenciado meu luto e eu achava bobagem.

No seu aniversário eu tentei te ver, juro que tentei, mas quando cheguei aos portões do cemitério, encontrei sua mãe saindo de lá.

Eu não tive coragem para enfrentar Lavínia, e acredito que nunca teria, a voz dela ainda era meu pior pesadelo, ela não te conhecia, ela não sabia quem você era.

Lavínia te tinha como o homem de ouro, mas eu me lembrava de quantas vezes você dizia que aquilo tudo não passava de aparência.

Essa foi a primeira vez que pude chorar por te ver partir, por sentir – me triste por você morrer.

Senti minha alma mais leve e mesmo lavando cada pagina que escrevo nesse momento com lágrimas por saber ser tão tarde, visto que já se passaram meses, eu me sinto bem.

Eu me sinto realmente bem, Nando.

Não sinto mais culpa, nem medo de levantar a cabeça e nem de caminhar sempre pra frente como tenho feito. Você sentiria orgulho de mim? Talvez não.

Mas eu tenho sentido…

Se houve algo que pude aprender com sua partida foi a olhar pra mim, me ver como eu era e o mal que eu estava me impondo vivendo a sua sombra.

Alguma parte lá no começo, dentro de mim te amava ou pelo menos eu achava que sim, hoje sei que na realidade era apenas a necessidade de não se sentir só.

Era aquele bichinho que faz de nós escravos de situações que nos prendem e nos cegam, e depois faz com que destruíssemos – nos a nós mesmos.

 

A vida continuava, uma garoa fina agora ganhava forma e força, deixando escorrer pela janela as primeiras gotas cheias de chuva, a mala estava desfeita, e eu?

Eu finalmente estava livre e a sensação era de certeza dos bons ventos.

Deitada no travesseiro eu ouvia bem devagar o palpitar de meu corajoso amigo, meu coração ainda estava vivo. Eu sorri e tinha certeza que naquela noite eu dormiria o sono dos justos.

Te visitarei em breve e logo te darei o meu adeus…

 

23:47 Hs…

Mari…

CONTINUA…

 

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