Dia 25… – Família

Mari1

 

Acordei com a luz fraquinha que vinha lá de fora, um dia nublado despontando além da minha janela, o calor das minhas cobertas, o conforto da minha cama…

Sorri ao constatar que a bola de pêlo cinzenta estava ali, me fazendo companhia, esticando – se como se fosse o dono de minha cama, só havia passado uma semana em Boston, mas senti falta daquele preguiçoso ao lado. Acho que eu já havia me acostumado a ter Netuno como guardião das minhas noites.

Olhei no relógio e vi o ponteiro marcar nove da manhã, liguei o celular e corri da cama, prendendo o cabelo de qualquer jeito, quase caí perto da porta e dei risada de meu estabanamento.

O que havia acontecido noite passada parecia uma lembrança antiga, que parecia não mais me afetar, abri a porta e dei bom dia ao casal que passava no corredor, para em segui bater a porta do 525 insistentemente, até que Carlos abriu ainda meio sonolento.

Minha reação foi inesperada até mesmo para mim, depois que analisei a situação… Rs

Pulei em seu pescoço abraçando – o apertado, eu havia sentido falta dele. O cheiro de quem acabará de acordar ainda se misturava ao da loção pós – barba, era bom e despertava algo estranho dentro de mim, a sensação de conhecer aquilo, de nunca ter vivido sem em algum momento da minha vida, não era como lembrar de Fernando, era algo novo e familiar, único.

Ele me abraçou e desse abraço eu senti calor, era confortável, e eu me sentia protegida.

Papai?” – aquela vozinha chamando com tamanha fofura me fez explodir de alegria, e ali ainda presa no abraço de Carlos, eu sorri espontaneamente.

Olha quem voltou.” – ele sorriu e me soltou, olhou nos meus olhos e eu não vi neles nada mais do homem ranzinza e triste que eu conheci, era bom vê – lo bem.

Valentina correu para meus braços, emaranhando a mão no meu cabelo bagunçado e enganchando uma das pulseiras nele.

Todos rimos e não notei que Hortência, fechava o hobby encostada na soleira da porta observando a tudo.

Eu agora me sentia em casa, tomamos café juntos e contei a Val da viagem, Hortência me colocou a par dos últimos acontecimentos e me disse que o câncer de Carlos havia regredido milagrosamente, o médico reduziu a medicação novamente e em um mês, se tudo corresse bem, ele estaria limpo e livre de tudo aquilo.

A noticia me deixou radiante. Eu estava feliz por ele, estava feliz por estar ali e me sentir parte de algo, e pensar que eu tive que passar poucas e boas, conviver com um gato, conhecer uma menina e salva um rabugento. Era ganhar uma nova chance na vida, acho que agora as fichas estavam sendo recolocadas na mesa.

Meus pais vieram no fim da tarde, minha mãe achou que eu estava muito magra, me perguntou sobre J. P com o quem planeja a festa de noivado, apenas disse que ele voltaria no fim de semana e que se ela quisesse combinaríamos algo com Ana em comemoração dos velhos tempos.

Karen me recebeu na Segunda muito alegre, a noticia de que a empresa do Sr. Halliwell nos contrataria efetivamente, isso me faria visitar Boston outras vezes e me daria a oportunidade de conhecer o que não tive tempo, eu me senti realizada, o aumento veio em boa hora.

Carlos me convidou para ir ao cinema, demos boas risadas do filme e por mais incrível que parecesse não agimos como se aquilo fosse estranho, parecíamos bons amigos que saíram juntos pra se divertir.

Ao Dr. Monteiro fui acompanhada de escolta por meu pai, que aproveitou para perguntar um zilhão de coisas assim que saí da sala, por mais que eu aparentasse estar bem e ele visse aquilo, não parecia o suficiente, e com isso eu notei o quão egoísta eu havia sido, por fazê – los se preocuparem.

Saímos dali e fomos tomar um café, mas dessa vez mudei o caminho e decidi conhecer uma cafeteria nova, vi Lavínia, e aquilo fez um frio correr no meio das minhas costas, meu pai de braços dados  a mim perguntou se estava tudo bem, eu apenas respondi que sim e fingi não tê – lá visto.

Eu estava me recuperando tão bem, não ia ser agora que ia deixar as rédeas correrem das minhas mãos, não era mais medo do que ela dissera ou representava, embora no meu peito eu soubesse que ainda havia uma nesga de culpa. Contei isso a Dr. Monteiro dias depois e ele me disse que era normal.

Nossa mente leva tempo para assimilar e rejeitar as coisas negativas que despejam em nós, existem aqueles que se isolam e depois de um tempo anulam, mas havia aqueles, que como eu, arrastavam aquilo como se fosse um fardo, deixando que nos atingisse e nos fizesse doentes por mais tempo.

Na Quinta – Feira, Val e Carlos vieram jantar em casa, contei a Carlos, aquelas coisas que me incomodavam, contei de Dr. Monteiro e de todas as coisas erradas que eu achava serem certas.

Embora Ana fosse minha melhor amiga e eu e J. P tivéssemos nos resgatados, contar para Carlos cada pormenor fazia eu me sentir livre de uma prisão. Ele se ofereceu para ir comigo ao túmulo de Fernando, marcamos para Segunda – Feira, visto que Sábado estaria esperando por J. P, junto com meus pais, Ana e Paulo.

Como ele reagiu? Achou divertido e disse que aquilo dera a ideia de reunir aqueles que ele também amava e que havia se afastado depois da morte de Clara, era esse o nome da mãe de Valentina.

Val tinha os olhos dela, mas o sorriso, ah esse era de Carlos com toda certeza do mundo.

O retorno de J.P não podia ser melhor, ele chegou cedo a São Paulo e a noite trouxe a mãe, que quase caiu dura quando me viu abrir a porta, Ana morria de rir, e só então entendi que ele não havia contado para ela para onde iriam.

Amigos, ele disse…” – a ouvi resmungar, mas estávamos todos tão contentes que nem demos muita atenção, logo minha mãe entabulou uma conversa com ela sobre suas aventuras, as quais meu pai cada vez mais virava os olhos em demonstração de reprovação.

A noite poderia parar ali, minha família, meus amigos. Risadas, um bom vinho, boas histórias, boas piadas…

Eu havia ganhado uma nova vida.

 

02:37Hs – Domingo – São Paulo – SP.

Mari…

 

 

 

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