Dia 26… – Despedidas

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A Segunda – Feira amanheceu estranha, não parecia que o fim de semana havia sido de festa, reencontros e risadas. De momentos alegres e amor incondicional.

Olhei no celular e o relógio do visor marcava 8:30 hs, meu retorno ao serviço seria somente na parte da tarde e em breve, claro, assim que colocasse tudo em ordem, as tão sonhadas férias, eu escolhi viajar para o Sul.

Hoje era o “grande dia”, se é que se podia chama – lo assim, o frio na barriga me deixava apreensiva, como se algo me pedisse pra desistir dessa, do que parecia ser agora, sandice. Mas uma parte em mim, dizia que essa também era a coisa certa a se fazer.

Não escolhi roupas pretas, ainda que eu amasse a cor e ela, para muitos, representasse luto. Eu não era uma e nem a “viúva”, era uma coisa que eu devia ter feito, mas recuei por que dentro de mim, eu acreditava que a acusação de Lavínia tivesse algum fundamento e realmente eu fosse culpada pela morte de Fernando.

Fiquei ali no chuveiro pensando nas coisas que anulei por medo, que talvez se eu o tivesse deixado partir de dentro de mim, teria vivido mais intensamente e com a certeza de que tudo poderia ter sido diferente, mas consegui ver que talvez se tudo tivesse sido diferente, não haveria Carlos, Valentina, Netuno ou Hortência.

Que talvez eu não tivesse visitado Boston e nem reencontrado J. P e não teria sentido a sensação maravilhosa de voltar a viver, como quem dá os primeiros passos.

Escolhi uma roupa confortável, coloquei um tênis e me olhei no espelho, esperando que o reflexo ali me dissesse que estava tudo bem, que já havia passado da hora de acertar os ponteiros e parar de se punir por algo que podia machucar, mas que era necessário.

Netuno estava deitado no sofá, a sala silenciosa parecia me dar conforto na minha hora de vazio, eu não sabia o que sentir e nem o que falar, se é que eu deveria dizer algo. Eu me sentia como Atlas, carregando o peso do mundo sobre meus ombros.

Me dirigi até a cozinha e preparei o café, que me pareceu um tanto amargo, acabei jogando fora e preparei um chá de rosas brancas, o amargor ainda estava em minha boca e meu estomago parecia não querer aceitar nada, fazendo looping’s monstruosos dentro de mim.

Eu não me sentia mais impelida a escrever esse diário como se ele estivesse aqui, não tinha mais os traços das lembranças e o cheiro dele agora era apenas uma memória que desaparecia a cada novo dia.

A campainha tocou e Carlos assomou assim que abri a porta, um tanto pálido, mas me sorriu encorajando -me. Parecia desconfortável para ele, me acompanhar, o que me fez perguntar se estava tudo bem. Eu tivera tempo suficiente pra lhe contar exatamente tudo e não sabia se ele conseguirá entender, afinal de contas ninguém, nem mesmo os mais próximos entendiam, salvo Dr. Monteiro, ou talvez nem ele mesmo entendia, mas a força de vontade de me ver voltar a viver era estampada em seu sorriso, que eu chegava nesse ponto da minha vida me perguntando se ele não era um salvador de almas perdidas como a minha. Quantas pessoas haveriam como eu no mundo?

Eu havia me tornado um pouco menos egoísta e margeava entender o motivo que levava Lavínia a me culpar, de alguma forma, ela sabia que fora comigo que ele brigará antes de se embriagar e bater a porcaria do carro.

Pegamos meu carro e o silêncio que se instalava dentro dele era sepulcral, até que o vi sorrir, Carlos nada me disse mas eu me senti segura, descemos do carro próximo á uma floricultura, optei por Gérberas laranjas, vivas… Lindas e saudosas.

Você está pronta?” – ele me perguntou pegando minha mão e entrelaçando meus dedos nos seus. Balancei a cabeça em sinal de afirmação e nos dirigimos a uma pequena recepção que havia na entrada, dei o nome completo de Fernando e recebi do senhor que ali se encontrava, um pequeno cartão contendo a quadra e o lote do jazigo.

Haviam pequenas placas brancas com nomes no que pareciam ser gavetas com fotos em preto e branco em um enorme paredão, algumas antigas, outras nem tanto. Idosos, crianças, jovens…

Algumas fotos me sorriam, e outras pareciam ranzinzas, Carlos parou diante de uma colorida, colocou uma das mãos no retrato e a outra no bolso, encurvando – se um pouco.

Os olhos encheram – se de lágrimas e ele apenas sorriu, encostou a ponta dos dedos nos lábios e ali depositou um beijo. Eu vi os olhos de Valentina, o mesmo brilho travesso e cheio de vida, na foto estava a esposa de Carlos, sentada em um banco de praça, em um vestido rosa claro e um barrigão, o qual ela parecia proteger com os braços.

Eu sinto muito…” – foi tudo o que consegui pronunciar, ele me olhou nos olhos e acenou com a cabeça.

Subimos ainda mais alguns passos até encontrar o anjo de gesso sobre o jazigo negro, entre fotos e mais fotos ali colocadas estava a dele. Fernando.

O olhar sério e frio de sempre, quando o “outro” fazia seu turno, Carlos ficou um pouco atrás, enquanto eu tentava de alguma forma gesticular alguma palavra de perdão ou de saudade, eu não sabia o que fazer e não sabia o que sentia. Foi essa a sensação que tentei evitar no dia do aniversário dele.

A ausência dura e crua, a lágrima quente escorreu por meu rosto seguida por outras, agachei – me perto da foto e depositei as flores.

Eu o amava tanto e o achava tão perfeito. O meu menino de ouro e companheiro das piores horas. Infelizmente tudo o que fiz foi afasta – lo. Quando gritava, quando batia a porta em seu rosto… Até o dia em que ele decidiu sair de casa e não voltar mais. Aparecia nas festas de família, mas não trocávamos mais que um aperto de mão. Eu matei meu filho, ano após ano por achar que ele não sentia nada e não queria nada com nada. Cobrava – o por não achar suficiente as coisas que ele conquistava. Sou culpada por expulsar cada namorada que eu achei inadequada e depois ele ganhou um coração de pedra que ninguém mais tocava. Eu me orgulhava do meu filho…”

A voz atrás de mim era amarga, triste e fria. Ela parecia ter perdido mais do que eu perderia em anos, abaixei a cabeça senti como se algo quisesse me devorar por estar ali.

Me perdoe por ter dito que a culpa era sua…”

Lavínia estava agora a meu lado, olhávamos a foto dele em silêncio, virei – me e dei – lhe um abraço apertado, ela retribuiu e naquele instante eu não a culpava pelas palavras. Eu não tinha pena dela, eu sentia sua dor, senti o quanto deve tê – lá devastado.

Carlos nos olhava de longe, agora eu me sentia realmente em paz…

Saímos do cemitério e Lavínia forçou um sorriso se despedindo, combinamos de tomar um chá qualquer dia, eu era a ultima pessoa que o vira e a única pela qual eles quis tentar lutar, segundo ela. Ela me agradeceu por tentar desfazer o que ela tinha feito, mas nenhuma de nós teve sucesso com Fernando.

Dei o braço para Carlos e caminhamos até o carro, o Sol começava a sair e tudo o que eu sentirá e sentia naquele momento se resumia a seguir em frente.

Mari, posso te dizer uma coisa?” – perguntou ele ao que respondi que sim. – “Acho que me apaixonei por você…”

CONTINUA…

 

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