Dia 27… – Surpreendida

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Eu não tive reação imediata, apenas soltei o braço de Carlos e parei hiperventilando aos poucos para tentar colocar as ideias e o que acabará de ouvir no lugar.

Precisava raciocinar rápido, ele se posicionava diante de mim e sorria, como se achasse graça do que acontecia.

Meu coração batia rápido demais e eu me sentia perdida, minha mente não parecia registrar as coisas que ocorriam ao meu redor, fosse o barulho das buzinas dos carros ou alguém falando no celular. Quando aquilo tinha acontecido? Como eu tinha deixado isso acontecer?

Carlos colocou a mão em meu rosto e manteve o sorriso me olhando nos olhos, eu nunca havia percebido como o reflexo do Sol em sua iris deixava eles em tom de âmbar quase translucido. Péssima hora pra reparar nisso.

Parece que te roubei algo…”  – me disse ele, talvez eu sentisse o mesmo ou não, mas eu não conseguia entender o motivo da minha relutância. J P havia voltado pra minha vida tinha dias e ganhará um beijo, Carlos dizia que estava apaixonado e eu agia como se tivesse recebido a pior noticia do mundo, que droga!

No começo parecia que eu queria tanto alguém e naquele breve instante eu entendi que quem eu queria naquela época, havia partido e na pior das hipóteses, se quer demonstrou a menor vontade de estar ali, sempre ao meu lado, nas minhas “noites escuras”, Carlos podia me dar isso, a sensação de segurança, de sentir -me amada…

Eu os estava comparando e Carlos não merecia, era injusto. Fernando havia morrido e tinha, por tempos, feito do meu coração um pedaço do inferno, ao qual eu nem me importava de habitar já que era omissa e fugia da chance de lutar contra, sempre me afundando mais.

Droga! Eu estava pensando demais e me fazendo perguntas demais, aleatória ao mundo e a quem esperava uma reação minha, ali, diante de mim.

Senti como se uma borboleta tocasse meu rosto, e o gesto me tirou do torpor e fez com que eu sentisse – me enrubescer, Carlos me dava um beijo leve no rosto.

Mari, eu não tenho e nem nunca tive medo de dizer as coisas que sinto. A Marina que me despertou essa coisa, que eu não sei definir, me conquistou como pessoa, pelas coisas que fez, por suas conquistas mesmo no meio do furacão, e por vencer a si mesma. Não estou te pedindo que sinta algo, só estou dizendo que sinto…”

Carlos acariciou meu rosto e pegou meu braço novamente, voltando a caminhar, ele me contava as alegrias e as tristezas que passamos nos últimos meses, de uma forma que eu se quer havia percebido. Era um ponto de vista diferente e na narrativa de Carlos eu não me reconhecia como a pessoa presente na maioria dos momentos, fosse nas horas distrações ou nas horas de desespero.

A memória mais vivida dele, foi a de quando pintei a parede e me sentei diante dela com Valentina.

Você parecia pronta a desistir de tudo. E aquela parede parecia marcar somente uma despedida. Naquele dia tive medo quando você fechou a porta, seus olhos queriam desabar.”

“Triste”, foi a palavra que ele usou, e no entanto cada vez que me viu depois daquele dia, algo em mim mudava.

A Marina que ele descreveu me magoou profundamente, me fez ver uma pessoa que eu não conseguia assimilar e nem conhecer em mim mesma. Me era estranha.

O que eu sentia por Fernando fez de mim uma morta – viva, lutando para não ser abatida a qualquer instante.

Eu me matava aos poucos, na minha ânsia de me fazer forte, agora eu entendia que enganava somente a mim, e mais ainda, entendia a dor de meu pai ao me ver dessa forma.

Cheguei em casa e almocei com vontade, fui trabalhar na certeza de me encontrar diferente, encontrei as pessoas que me sorriam e me perguntei quantas vezes elas haviam convivido com meu jeito triste, frio e taciturno dos últimos meses.

Carlos passou a manhã me mostrando sem saber o que meu pai tentou me dizer e Dr. Monteiro trabalhava para desmanchar. Ele me fazia bem, e isso eu não podia negar.

Os dias que se seguiram foram rotineiros, Carlos não tocou mais no assunto, mas continuava a mesma pessoa, na realidade ver ele sorrir timidamente das minhas roupas bagunçadas e com total falta de combinação nos dias de folga, me deixava leve.

Ele era o que eu queria de um homem, e o que eu precisava. O amigo, o confidente e o irmão…

Abraça – lo era como abraçar o mundo e se sentir única, era sentir – se plena por cometer tal façanha, juntava cada pedaço partido, secava cada lágrima e colava qualquer caquinho, nada parecia capaz de me destruir ali, Carlos fazia mágica.

Era esse o tipo de vida que eu quis um dia, mas não me achava merecedora.

Eu ainda não tinha certeza do que sentia e nem do que estava acontecendo entre nós, mas uma coisa era certa, fosse lá o que fosse, estava achando um jeito de nos encontrar no caminho…

22:47 Hs – Terça – Feira – São Paulo – SP

Mari…

CONTINUA.

 

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