Dia 28… – Lavínia

Lavinia1As coisas pareciam estar voltando ao seu curso normal… Férias marcadas  para a próxima semana. E aí veio o susto, recebi uma ligação que eu jamais achei que ocorreria e me deixou em choque.

Lavínia, como havíamos combinado naquele dia, me chamava para um chá. Quanto ao convite, o problema era o local. Eu encontraria ela e Tânia.

Eu me lembrava da ultima vez que estive lá, na casa de Fernando, as poucas roupas que a ele devolvi, que estavam em minha casa… As minhas coisas que resolvi tirar de lá, a memória era fresca ainda, parecia que fora outro dia.

O frio percorreu minha coluna quando toquei a campainha , eu sabia que ele não abriria, nunca mais, mas a lembrança de algo que havia passado ainda estava enraizada em mim.

Tânia me abriu a porta solicita e pouco tempo depois adentrei o que a mim pareceu o terreno inimigo. Alguns móveis estavam cobertos enquanto outros havia sido tirados ou substituídos eu não sabia ao certo e não fazia questão de me perguntar, me era estranho estar ali.

Tânia voltou com duas xícaras de chá e um café numa bandeja com flores azuis, desenhadas, em minha mente eu sentia cada neurônio se preparando para um embate que ainda não tinha acontecido.

O ar pareceu suspenso, um tanto tenso entre nós, e se o momento no cemitério não passasse apenas de um lapso de dor de uma mãe desesperada em busca de consolo.

Ficamos ali, paradas, presas em nossos pensamentos, aquela casa agora me parecia tão vazia, tão sem vida e estranha, era como ter vivido ali em outra época e voltar depois de uma longa viagem me sentindo uma estranha no ninho.

Obrigado por vir…” – ela me sorriu ainda com a cabeça baixa.

Tânia apenas balançou a cabeça e tomou mais um gole do café que bebia.

Lavinia levantou – se por um instante nos deixou a sós.

Obrigado por não brigar com ela, e principalmente pelo o que está fazendo. É importante pra ela, sabe. Acho que isso pode fazer bem, faz tempo que temos lutado com a tristeza, algo nela não o deixar partir por completo, e talvez seja isso.”  – Tânia parecia estar longe dali.

Ela voltou até nós com uma caixa de madeira decorada com filegramas dourados, pequenos carros desenhados e o nome de Fernando na tampa, e me entregou, ela tinha o cheiro dele.

Olhei a caixa e voltei – me para ela que apenas acenou com a cabeça, abri a caixa e para minha surpresa estava cheia de fotos…

Uma mexa do primeiro corte de cabelo, o primeiro dente de leite a cair, um sapatinho de tricô verde…

Eram as fases da vida dele, guardadas por ela.

A infância, a adolescência, os primeiros passos, os sorrisos de um bebê rechonchudo de cabelos claros, uma pescaria com o pai, o fim de semana na praia ao lado da irmã, o primeiro óculos, a primeira namorada, a formatura da escola e também da faculdade.

Eu assistia gradativamente o sumiço dos sorrisos conforme a idade o alcançava, presenciei em várias apenas amigos e parentes compartilhando as glórias, mas nunca ela, a mãe.

Lavínia contava – nos emocionada cada peripécia, as malcriações, as vontades e as festas. Vi os olhos de uma mãe que amava se encherem de lágrimas e vi a irmã consola – lá, só então entendi plenamente o abraço apertado de Carlos em Valentina quando ela fugirá  meses atrás, o medo de perder, a minha dor que começará a cessar não se parecia em nada com aquilo, era suportável e me dava chance de seguir adiante. E ela?

Eu via habitar ali a saudosidade, aquela vontade de ter ao alcance dos dedos e não poder, perder o que gerará, o que viu crescer e nascer, um pedaço mais do que sentimental, físico.

Não era apenas o último adeus que eu dava a Fernando, era fazer parte da vida daqueles que o amavam antes de mim.

Abracei Lavínia quando guardamos juntas a última foto. Um Fernando taciturno, sem sorriso ou brilho nos olhos nos observava.

Você era importante pra ele…” – ela me entregou cartas, amarradas por uma fita de cetim preta, amassadas e manchadas.

Estavam escondidas na gaveta do escritório dele. Tenho certeza de que um dia ele iria te entregar.”

Agradeci e coloquei – as na bolsa, leria assim que houvesse um tempo após a tarde de hoje.

Eu me sentia cansada, não no sentido de triste e dolorida, não. Só tinha coisa demais para absorver.

Carlos sairia naquele dia com a família, visitaria a mãe que não via ao que parecia um bom tempo, Hortência me disse, ele sorria e me parecia uma pessoa diferente do cara rabugento que encontrava no corredor. Netuno tinha rumo certo, minha cama.

Valentina estava animada e havia crescido da noite para o dia, outra vez, o cabelinho fazia pequenas ondas nas pontas e a fala começou a ficar mais firme, eu sabia que em breve, não teria mais os pulinhos pela casa atrás de Netuno, as mudanças aconteciam ínfimas e notáveis a nossos olhos mesmo não querendo admitir.

Tomei um banho quente ao som de Mozart pensando em como conseguirá chegar até ali, não achei que fosse possível, mas me lembrei de quem havia sido o maior esforço, se não fosse ele, meu pai, talvez eu tivesse desistido de levantar e caminhar. Esqueci do tempo em que estava ali e me permiti não pensar sobre nada.

Cozinhei, como não cozinhava a tempos, liguei para meu pai e agradeci a paciência e disse o quanto o amava. Agradeci pela força que me deu, mas principalmente por não desistir de mim quando eu estava em ruínas.

Ele teve a fé que eu não tive e em partes acho que foi essa fé e o comprometimento de Dr. Monteiro que me ensinou a zerar as expectativas e sair da minha sub – vida zumbi.

Sorri sozinha, olhei para a bolsa e vi o laço de cetim. Era uma boa hora para ler…

CONTINUA…

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