Dia 29… – Cartas

cartas5_FotorMe restou encarar o laço que havia ali sem muito cuidado ou jeito. Nunca fui lá muito delicada, mas enfim…

Havia poemas com as laterais da folha desenhadas ou com trechos de letras de música, as mesmas que me lembravam ele. Sorri meio tola.

Algumas tinham o cheiro dele, outras manchas de café. Falavam do tempo, do mundo e da superficialidade de algumas das garotas que ele conhecerá numa festa ou outra, ele me pedia desculpas…

E foi em uma dessas que descobri como era frágil, como era insensato e ao mesmo tempo solitário, ter a vida dele.

Eu não o culpava tinha algum tempo por que já entendia que muita coisa não era apenas erro dele, eram meus também.

Havia cartas falando das discussões com Lavínia e das tardes com Tânia, dos amigos e do “irmão”, Paulo.

Tinha algumas entrelinhas de despedida, de saudades, de enganos. Tinha o verdadeiro Fernando, aquele que me cativou um dia…

Oi? Me deu vontade de te ver hoje, mesmo sabendo que brigamos noite passada. Parece vazio sem você, parece não fazer sentido.

Eu vejo sua foto sorrindo e vejo como seus olhos ficam lindos a luz do Sol. Você tem covinhas quando sorri, elas são lindas.

Eu gostaria de me importar mais e sei que é algo que você também quer, te escutei outro dia…

E honestamente,  me doeu te ouvir soluçar baixinho enquanto ligava o chuveiro, acho que sentiu raiva de si mesma, depois entendi que era nojo. Eu lamento, Mari. Eu realmente sou o cara errado.

Eu tento, e me afasto… E volto.

Você é o tipo de luz que eu preciso, e eu sou o tipo de erro que boas garotas, não sendo hipócrita, eu juro. Não deveriam conhecer.

Garotas do tipo casar e ter filhos, e viver uma vida de conchinha, beijo na testa e cheiro de baunilha com morango quando acorda. Eu adoro seu cheiro quando acordo e a mexa que caí sobre sua bochecha.

Estar com você me faz ser diferente, um diferente bom. Mas não sou esse tipo de pessoa.

Se eu pudesse…”

A droga da lágrima escorreu e se ele estivesse vivo eu o teria estapeado. Aquilo era tortura, ele sabia o que me fazia…

Sinto sua falta… 

Já se passaram dois meses e agora acho que é definitivo.

 Ninguém tem notícias suas e se tem, não quer me dizer, Paulo me deu a entender isso outro dia…

Seu número está mudo, isso me matou um pouquinho e não te culpo, talvez eu até mereça. Mas sabe aquele Sol de Inverno, que nos mantém estagnados sem saber o que sentir? 

Pois é, estou vivendo ele, todos os dias, cada hora…

E não, elas não tem o seu cheiro, nem o sorriso de menina – moleca que tanto gosto.

Seus livros são apenas papéis sem vida quando não há você de meias trocadas por trás deles.

Eu sinto sua falta…”

Era a nota em um guardanapo de lanchonete manchado de alguma coisa que eu não soube definir. Eu não sabia definir ele nesse momento. Nem a mim.

Eu sentiria revolta, mas não senti. Se quer sofri, apenas senti saudades de algo que poderia ter sido meu e esteve ao alcance dos dedos. Em que havíamos falhado? Me fiz essa pergunta novamente e depois de tanto tempo.

A cama está fria… Tem um corpo ao meu lado e eu não lembro nem o nome dela.

Eu esperava que ela ressonasse como você e sorrisse de olhos fechados me mandando parar de olhar. Ela apenas dorme.

Não é teu corpo sobre o meu que faz falta, nem o beijo aveludado com gosto de vinho. É o calor…

Meu dia foi um Inferno, o abajur está ligado e isso te irritaria, você detesta claridade. Tenho medo de quando ela acordar esperando que eu a abrace e a deixe ficar…

Se eu não fosse tão covarde ou idiota era você que eu deixaria ficar. O lugar dela não é aqui… Essa é nossa cama.

O que foi que foi fiz Mari?”

Senti um nó na garganta e me afastei das cartas, levantando – me da cama e passando as mãos no cabelo. Parei diante da janela e fiquei assistindo as luzes da cidade dançando diante de mim.

Em que dimensão aquilo tinha acontecido? Era a única pergunta que eu me fazia, o Fernando que eu conhecia, não diria um terço daquilo, mas a caligrafia não deixava dúvidas.

As músicas tocavam em algum lugar da minha mente e a lembranças da carta que escrevi e coloquei dentro do livro no outro dia, me fizeram respirar fundo, tinha algo seu ali ainda me dizendo pra continuar. O semblante sorridente de Carlos invadiu minha mente e me senti corar.

Balancei os ombros desajeitadamente e senti me livrar de um peso, não por ter certeza de que Fernando havia sentido algo, mas por saber que não era só eu a confusão ambulante no meio dessa bagunça.

Você estava linda hoje, mas a tristeza espelhava seus olhos.

Triste também eu fiquei, pois minha era a culpa.

Gosto da grama presa ao seu cabelo e do Sol te fazendo apertar os olhos por trás da lente do óculos. Amo cada onda de seu corpo e cabelo. Admiro cada mania que te faz ser tão moça e tão mulher.

Ah, Mari, é tudo tão mais fácil com você e tão mais complicado.

Tens me feito pensar nos últimos dias, e já não te vejo sorrir, você tem fugido. O combinado não era esse, aliás tem horas que eu queria que essa porra de combinado, só pra variar fosse alterado.

Estive escutando nossas músicas. Sim, elas são nossas e de mais ninguém, cada uma delas, mesmo aquelas que você nem parece se importar, são só nossas e não importa o que pareça, pertencem á você, quero que você um dia saiba disso e consiga entender que era importante pra mim. Vou mudar o escritório de casa, quero você por perto, quero que tenha você aqui e que você não queira ir embora depois que…

Eu não sei como dizer o que fazemos, o que você faz…”

As cartas pareciam tão sinceras e eu ali perdida no meio da madrugada lendo uma por uma, de modo desconexo, pensando nas coisas que pensei sobre ele, na forma como nos tratávamos e até mesmo nos erros que eu não queria cometer com alguém que chegasse depois de tudo, ironias da vida, Fernando estava morto e sepultado á meses, mas naquela noite era como se estivesse deitado exatamente ali do outro lado da cama, olhando para o teto, conversando coisas idiotas sobre o céu e as estrelas, como tinha o habito de fazer.

Hoje eu entendi você e finalmente me entendi…”

Ele dava detalhes da única noite da qual eu o sentirá realmente como ele era, as mãos carinhosas segurando – me os pulsos depois de uma briga, enquanto a boca dele descia por meu pescoço traçando beijos suaves que me arrepiavam a nuca, eu desisti de brigar. Você me olhou nos olhos, olhos esses que pareciam ter medo e me pediam licença para ser “invadida”. A mão desceu pela minha cintura, me trazendo para perto e a outra acariciou meu rosto delicadamente, eu não tive medo e nem prazer, era apenas o carinho e um sentimento que eu não sabia explicar.

Eu lia cada palavra sua descrevendo o que havia acontecido com você naquela noite, do que sentiu quando fez desenhos em minhas costas com as pontas dos dedos, frios, aleatórios a tudo… Ao mundo…

O que teria acontecido se tivesse dado certo, honestamente eu jamais saberia, mas parte de mim ficava feliz por não ter dado. Éramos complicados.

Eu via  o dia nascer quando mandei uma mensagem a J. P contando por alto sobre as cartas, Lavínia e qual era o teor do que ali continha, amarrei – as novamente e guardei – as na caixa que continham as poucas fotos que sobraram de nós dois, mandei uma mensagem a Lavínia agradecendo por me dá – lás e principalmente por me deixar ficar com aquela parte sua.

Escrevi para Carlos e expliquei coisas que ele havia me perguntado e não tive coragem de dizer, fui sincera e mostrei os cacos que ainda habitavam dentro de mim, eu estava bem, mas não estava totalmente curada, me refazia estar com ele e me ensinava a deixar pra trás, seguir em frente.

Carlos me dera um porto, todos os dias desde que o conheci, eu só não havia notado.

Ler cada parte do que era Fernando me deu essa certeza, eu estava me tornando seu porto, infelizmente não tive a chance de deixa – lo “aportar”, a vida precisava me ensinar e essa foi a maneira.

Se eu sentia falta? Ainda sentia, mas era apenas saudades e agora amor. Um amor honesto e afetuoso.

O dia estava começando na grande metrópole, ali, bem diante de meus olhos e como uma cena de filme eu assistia o desfilar de memórias nossas, minha e dele, dançando, sorrindo, viajando, vivendo, sonhando…

Adeus, Fernando…

CONTINUA…

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