Dia 30… – Acertos

mari-final

Eu nem sei o que escrever nesse último dia…

Pensei muito no que li, e no impacto que causou. Fernando me ensinou a ser melhor, a olhar mais pra dentro de mim, e isso me fez sentir – se diferente.

Diferente… Rs

Parece ironia que eu esteja bem, que as coisas tenham começado a funcionar aqui dentro.

Dias após ler a carta me mantive um tanto reclusa, disse não a um convite de Carlos para o cinema e para o jantar na semana seguinte. Ele não pareceu chateado e também não perguntou o motivo.

Viajei até Riviera com os amigos e isso inclui J.P, éramos irmãos definitivamente, seria impossível vê – lo como homem e nisso até ele concordava.

Quando voltei Valentina adoeceu, Pneumonia. A doença sugou a fala e a cor de minha pequena saltitante, meu coração doía feito o Inferno, Netuno sentia o mesmo, Hortência mantinha – se firme, embora eu soubesse que estava arrasada.

Carlos… Estava inconsolável, andava de um lado ao outro do corredor quando era hora das medicações. Peguei minhas férias antes  e cancelei a viagem. Passamos as noites revezando no hospital para que ninguém se cansasse. Carlos tinha medo de perder a filha, e eu tinha medo de ver aquele sorriso morrer e me abandonar depois de tudo.

Uma semana foi o suficiente para que todos voltássemos a sorrir, Valentina voltava pra casa, mais espoleta do que antes e com um pai bobo fazendo toda e qualquer vontade que ela tivesse.

Eu nasci de novo, Marina… Duas vezes, só nesse ano.” – Eu sorri e balancei a cabeça concordando, eu também tinha recebido a chance de nascer de novo.

Aceitei o convite pra jantar Dessa vez, seríamos eu, Carlos, Val e Netuno.

Eu não cansava de ver aquele jeito paizão, sorrindo no meio da cozinha com um pano de prato no ombro e uma panela com molho na mão. Ouvíamos música, enquanto eu ajudava a ir lavando o que ele desocupava, ele contava sua vida.

Os pais… Amigos… Amores… Clara… E Valentina.

Não entendíamos como chegamos até ali e olhávamos a metade do ano espantados com a velocidade com que tudo havia acontecido.

O prato da noite: Strogonoff de Frango com Champignon e batata palha. Ele fazia no molho branco e ficou perfeito, o sabor da noz moscada era suave e nem o sabor do queijo eu sentia. Carlos era um ótimo cozinheiro.

Terminamos o jantar com Valentina contando as peripécias e aventuras na escola, ela estava se adaptando novamente, mas agora ela não reclamava tanto. Tinha amiguinhos.

Assistimos um filme, mas Val dormiu nos primeiros 15 minutos. Carlos colocou – a no colo e eu acompanhei em silêncio até o quarto, o cheiro de baunilha, as bonecas em cima do pequeno baú cor de rosa e no abajur, as pequenas estrelas lilases rodando no teto, iluminando o sono da pequena espoleta. Eu sorri encostada no batente da porta, Carlos era um bom pai, aquele tipo amoroso. Aquela menina era realmente a vida dele…

Voltamos para a sala ainda calados. Cada um com seus pensamentos.

Café ou Chá?” – perguntou – me.

Minutos depois ele voltava com a xícara fumegante e por coincidência ou sorte, o chá que eu amava.

A Val ama chá de morango, espero que não se importe.” –  ele parecia sem jeito.

Religamos o filme e o silêncio se instaurou novamente, acabei cochilando, acho que o cansaço do dia me tinha feito aquilo. Eu me sentia segura e confortável ali. Em paz.

Lembro – me de abrir os olhos e ver o vaso com lavanda ao lado da cama e o cheiro de um perfume almíscar num movimento leve.

“Obrigado, Mari… Por ficar…” – um beijo suave nos lábios, um carinho afável no rosto e o ajeitar de uma mexa de meu cabelo solto…

Acordei no dia seguinte em uma cama que não era a minha e com a sensação de que sonhará.

O par de olhos claros me olhava junto a Netuno sorrindo.

“Bom dia, tia Mari…”  –  Valentina.

Arregalei os olhos e me levantei correndo.

Shiuuuu… O papai tá dormindo lá na sala” – ela apontou.

Olhei, sorri e prendi o cabelo e pedi ajuda para Valentina, iríamos fazer o café. Ele estava cansado também, era o mínimo que eu podia fazer.

Val me dizia onde estavam as coisas e ríamos da bagunça que acabávamos fazendo sem querer e nem percebemos que ele nos olhava de braços cruzados na porta.

Papai…” – ela correu na direção dele, enquanto eu limpava as mãos em um pano.

Carlos pegou Val no colo e beijou sua testa, descendo – a em seguida e sendo arrastado para a sala, insistentemente pra colocar algum desenho.

Terminei de arrumar a bagunça e passar o café quando ele retornou.

Carlos deu a volta na bancada e caminhou em minha direção, eu senti o frio na barriga e o coração acelerar.

Oi…”  

Aquele sorriso destruiria um exército, o ar me faltou, e o chão pareceu sumir.

O hálito quente, tão próximo…

O olhar de cautela…

Eu preciso de você, Marina.” – sussurrou ele.

A mão dele acariciou o meu rosto, a ponta dos dedos frios me causou arrepio, pisquei algumas vezes mais rápido do que percebi e Carlos me beijou.

A outra mão puxou – me pela cintura lentamente, enquanto a que estava em meu rosto deslizava em minha nuca.

Eu queria estar ali, exatamente ali, no abraço, no beijo, no gosto…

Abracei – o como se eu fosse perdê – lo e esqueci o resto do mundo. Acho que me apaixonei pelo cara rabugento.

Bom dia! Eu… Opa!” – não esperava que Hortência viesse ou que visse, me assustei e Carlos apenas me soltou, coçando a cabeça.

Hortência…” 

“Eu acho que cheguei na hora errada ou certa, talvez.” 

Caímos os três na risada e ali, olhando com cumplicidade pra aquele cara eu percebi, era o início de uma longa história…

barrinha5
“Querido Dr. Monteiro…

Parece que não iremos mais nos ver, terminei o diário e como o senhor pode ver, acredito que ficarei bem. Melhor, talvez, impossível… Rs.

Estamos em Gramado. Sim, estamos! Olha as reviravoltas da vida, Carlos e eu estamos, oficialmente namorando e quer saber doutor? Eu acho que o amo!

Vou sentir saudades dos puxões de orelha e até das conversas em que só eu falava, mas acima de tudo: Muito Obrigado! Sua paciência foi muito importante, assim como a do meu pai, me serviu de apoio.

Netuno, está na casa de Hortência e Valentina parece não se importar de me ver dormir mais vezes por lá.

Tem sido bom, sabe? Tudo, tem sido bom, melhor do que bom.

As fotos… Bom, o senhor é o psicólogo e decide o que vai fazer. Este é o fim dos 30 Dias, obrigado por me ensinar a “me” conhecer…

Com amor… 

Mari!

barrinha5


“O que você acha Doutor?” – perguntou Sr. Rafael

Eu acho que ela vai ficar bem. Sua filha achou o próprio caminho” – disse Dr. Monteiro fechando o diário e retirando o óculos…

FIM! 

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